Transcrevo um artigo saido no Jornal da Academia do Porto (JUP), edição Fevereiro/Março 2008, página 24, escrito por Daniel Reifferscheid:
Músicos aderem cada vez mais a editoras digitais
NETLABELS PROCURAM NOVOS SONS
Com o surgir da muito badalada revolução digital, era omnipresente a conversa sobre como o futuro da música passaria por uma relação directa artista/público, deixando de lado as edioras que, como todos sabemos, metem-se sempre no processo criativo do artisto e "só querem é dinheiro". Surpreendente, então, constatar que cada vez mais, os artistas com "know-how" do online (isto é, aqueles cuja fama reside tanto em blogs, podcasts e no myspace como nos meios tradicionais) se estão a juntar a um novo tipo de editoras - as netlabels.
É claro que o estereótipo da editora monolítica, anónima e sedenta de lucros é apenas uma parte da história. Aplica-se principalmente aos grandes conglomerados que, devido à cada vez maior monopolização do mercado, estão sempre a fundir-se em entidades menos e menos interessadas no aspecto estético do seu trabalho. Mas na história da música, não faltam exemplos de editoras que, seja por amor à música ou ao dinheiro, criaram estéticas próprias e levaram os seus artistas a lugares aonde, sozinhos, provavelmente nunca teriam chegado. Editoras como a Okeh, a Atlantic ou a Chess deixaram-nos um legado de música "roots" americana que muito facilmente poder-se-ia ter perdido. Para um bom "music geek", notar que um determinado disco saiu na Stax, na Fania, na Motown ou na Studio One já diz muito sobre o seu conteúdo. Impossivel imaginar o movimento Pós-Punk sem a Rough Trade, a Postcard ou a Virgin; o Hip-Hop sem a Tommy Boy ou a Def Jam; a música electrónica sem a Warp ou a strictly Rhythm. Mesmo hoje, ainda associamos certas sonoridades específicas a selos tão dispares como a Kompakt ou o Secretly Canadian, já para não falar das editoras de relançamentos, um campo aberto pela Rhino Records que hoje conta com iniciativas tão interessantes como a Soul Jazz, a Light In The Attic ou a Numero.
Mas como funciona isto das netlabels? Numa era em que a música quer-se livre e sem manifestação material, qual é a função das editoras? O JUP entrou em contacto com quatro netlabels de destaque no panorama português: a Merzbau, a Enough Records, a Test Tube e a estreante Other Newest Records.
O QUE É UMA NETLABEL?
Como o próprio nome indica, uma netlabel é uma editora que disponibiliza as obras dos seus artistas online. Apesar de não ser completamente inédito existirem netlabels que colocam preços nas obras dos seus artistas, o mais normal é estas encontrarem-se disponíveis para um descarregamento gratuito. Para Pedro Leitão , da Test Tube, a própria razão da criação da sua editora passou pela existência de muitos projectos musicais que não podiam ser promovidos de forma tradicional: "recebemos cada vez mais demos de artistas e bandas de estéticas experimentais e que dificilmente teriam lugar e oportunidade em edições físicas, que exigem um esforço financeiro muito grande e com muito reduzidas prespectivas de o recuperar a curto ou médio prazo."
A internet é um meio com vantagens enormes para os músicos, mas nem toda a gente tem vontade de se lançar nas trabalheiras promocionais exigidas numa edição de autor. Daniel Catarino, que cria ambientes electrónicos soturnos e esparsos para a Test Tube sob o pseudónimo Landfill, considera que as vantagens "passam, sobretudo, por teres ajuda a tratar de algumas coisas que fazem parte de qualquer lançamento: as capas, a protecção dos direitos de autor, a divulgação e a exposição em alguns meios onde, de outra forma, provavelmente não chegaria o trabalho se fosse tudo feito por mim."
As netlabels são organizações bastante distintas das editoras tradicionais. Pedro Leitão estabelece a comparação com as galerias de arte: "gostamos de pensar nos trabalhos que oferecemos não como um produto - que foi naquilo em que a indústria transformou o disco - mas sim numa peça de arte como um quadro ou uma instalação. No fundo a Test tube é uma galeria de obras de arte e é assim que encaixa no nosso conceito de netlabel. Nós meramente fazemos o trabalho de selecção de apresentação - de curadoria." Também Tiago Sousa, da Merzbau, rejeita os moldes de editora tradicional: "nós não prestamos serviços. A Merzbau é uma comunidade de artistas e pessoas interessadas em criar e promover actividades. O espírito da Merzbau é de lançar mãos ao trabalho e descobrir formas diferentes de agir." De facto, "comunidade" parece ser uma palavra-chave quando analisamos o fenómeno das netlabels, e os próprios artistas admitem que poder fazer parte duma "família" discográfica incentiva à colaboração artistica. "Ajuda no contacto com outros músicos para criar projectos possivelmente interessantes", afirma Landfill; os Without Death Penalty, uma das primeiras bandas assinadas pela Other Newest, concordam: "o contacto pessoal entre bandas (...) é maior, o que nos abre um leque novo de possibilidades quanto a concertos que se poderão vir a realizar, coisa que até ai era complicado pois não tinhamos conhecimento de outras bandas dentro do nosso género e que estivessem mais ou menos no mesmo nível que nós."
Tal como já acontecia nas editoras físicas de menor porte, surge uma certa camaradagem entre artistas e editor: "tentamos comunicar sempre de forma vertical, de forma directa - não há nenhuma hierarquia", explica Nuno Martins da Other Newest Records. "Como este tipo de editoras funcionam de um modo mais caseiro, o contacto entre a entidade directora (...) e as bandas é muito mais directo", adicionam os Without Death Penalty.
PROMOÇÃO E DISCOS
Mas saindo do conceptual e passando para a realidade concreta, será que os apoios que um artista recebe duma netlabel se comparam aos duma editora tradicional? "Primordialmente, disponibilizamos as releases online para download gratuito. Temos vários servidores e serviços p2p onde as nossas edições estão alojadas (archive.org, scene.org, last.fm, vuze, soulseek)2, diz Filipe Cruz da Enough Records. Mas a actividade da sua editora não se fica por aí: "desde a um ano para cá ocasionalmente organizamos concertos para dar a conhecer projectos que editam na Enough, organizamos por exemplo um festival de musica electrónica experimental independente chamado STFU Porto, 3 dias, 9 projectos (2 deles estrangeiros) e várias noites dedicadas a música alternativa (Electro-Industrial, Noise, Dark Ambient), não porque desgostamos dos géneros tradicionais, simplesmente porque não acontecem muitos eventos destes nas cidades portuguesas e é uma pena porque há ai muito talento escondido debaixo das rochas pronto a ser descoberto, mas sem público interessado..."
Ao contrário do que se poderia pensar, as netlabels não excluem também os lançamentos de CDs em formato "físico": "o importante é promover, seja através de lançamentos online ou mesmo em CDRs", remata Nuno Martins. CDRs e DVDs são os formatos predilectos: a Test Tube tem apostado com bastante sucesso nesse campo: "sazonalmente iremos imprimir um catálogo em formato DVD media com uma compilação doq ue já se fez. Neste momento já temos a primeira edição desse catálogo concluída, que começamos a vender em Abril de 2007. Contém as primeiras 75 edições num único DVD com uma apresentação gráfica digna dos trabalhos que lá estão. Correu muito bem e esgotámos as 100 cópias que imprimimos em apenas 3 semanas." Também a Enough utiliza estes meios: "ocasionalmente organizamos compilações e imprimimos CDRs, mais para oferecer promocionalmente em concertos ou encontros. Anualmente imprimimos uma catrapada de dvdroms com o catálogo mais recente da editora e oferecemos ao desbarato."
OS CONTRATOS
Como seria de esperar com operações tão pequenas e familiares como as netlabels aparentam ser (pelo menos por agora), a burocracia é minima e a liberdade considerável. Diz Pedro Leitão da Test Tube: "Qualquer artista que nos aborde e que colabore com os seus trabalhos na Test Tube é livre de os apresentar noutras editoras, sejam elas igualmente livres ou comerciais. Não há restrições nesse sentido nem nunca haverá. Não faz parte do espírito e da postura do conceito de 'música livre' existirem correntes e espartilhos empresariais." Filipe Cruz da Enough concorda: "acontece muito um artista editar em diferentes netlabels, não só para tentar dar apoio a quem está à frente da editora como também para tentar atingir maior público possível, é prática comum." a situação lembra uma versão ainda mais radical da atitude dum Tony Wilson da Factory Records, tornada mito no "Twenty Four Hour Party People". Tiago Sousa concorda com a comparação: "Exacto, é completamente Factory, só que eu não assino contractos com sangue. Tenho fobia a sangue."
Mas mesmo dentro destes parâmetros, surgem conflitos: "Só detesto é quando passo meses a dar feedback a alguém e a incentivar para acabar o seu novo trabalho e depois decidem enviar a outra netlabel porque tem mais nome, nesse aspecto corto logo o nome do artista da lista de projectos interessantes que quero ver editar na Enough.", lembra Filipe Cruz. Desde a sua criação, a Enough tem tido algumas dificuldades com este tipo de situações: "houve alguns problemas com algumas editoras e a indústria musical neste aspecto, onde artistas mal informados tratavam as netlabels como veiculo promocional temporário, depois assinavam os temas e pediam para os removerem, isso para mim é uma palhaçada. Ainda pior é quando assinam um nome numa sociedade colectora de direitos de autor que envia emails à netlabel a pedir dinheiro por disponibilizar a música do artista, o artista nem tem voto na matéria. São modelos completamente arcaicos que só fazem sentido no capitalismo cego da indústia, gente que anda atrás da mama do artista e artistas que consentem ser completamente explorados porque recebem uns trocos cada dois anos. Uma completa palhaçada que infelizmente ainda vai tem muito pano para mangas." Talvez por causa disso, a Enough possui um certo sistema de segurança: "quanto aos formalismos contratuais exijo sempre uma resposta de confirmação por email a dizer que compreendem que ao editarem na Enough nos estão a ceder os direitos não exclusivos de vitaliciamente distribuir estes temas em regime não comercial e que uma vez editados não os removemos do nosso catálogo."
A Test Tube, por sua vez, recorre às licenças de "Creative Commons", uma organização cujo objectivo é possibilitar ao artista ficar com alguns direitos de autor ao mesmo tempo que prescinde dos restantes - uma tentativa de adaptar o "copyright" à era de informação, no fim de contas. "Apoiamo-nos tamb+em nas licenças Creative Commons que conferem uma base legal aos trabalhos oferecidos, e os enquadram em termos de copyright (ou copyleft, como é mais conhecido) para que os artistas sintam que estão de alguma forma protegidos contra a utilização abusiva dos seus trabalhos", explica Pedro Leitão.
THE SOUND OF YOUNG PORTUGAL
Mas para o consumidor, tudo isto importa muito menos do que o factor principal: a música. Lentamente, nomes como Merzbau ou Borland começam a associar-se no panorama musical português a certas sonoridades. Também a Test Tube tenta marcar pela diferença: "Tal como uma galeria de arte cuida a sua imagem e apresentação dos seus catálogos, também a Test Tube procurou desde o início posicionar-se no 'mercado' das netlabels, oferecendo a quem queira colaborar com ela uma imagem cuidada e facilmente identificável. Não sei se podemos apontar algum estilo à Test Tube... mas a poder, julgo se seria um estilo funcionalista. Interessanos sobretudo que a imagem seja clara e identificável e apenas depois seja agradável. O que há de positivo nesta estética é que normalmente o que é simples e funcional é bonito e agradável."
Para Landfill, pertencer a uma netlabel não deixa de ser um certo rótulo: "...há ainda muita gente que não coloca os lançamentos por netlabels ao mesmo nível dos editados em formato físico por uma outra editora. Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. E também porque o fenómeno surgiu por necessidade de editar certos estilos demasiado 'estranhos' para as editoras normaism talvez stenha ficado o estigma de netlabel = música 'estranha'." Filipe Cruz, cuja Enough é vista principalmente como uma editora electrónica, queixa-se da falta de interesse por falta de artistas Rock: "projectos de 'banda' tendem a não estar muito interessados nas netlabels, ainda têm sonhos de ser explorados pela indústria, parece que preferem fazer edições de autor e depois cair no esquecimento."
Apesar de todo o optimismo, não é possível negar que as netlabels não possuem o mesmo poderio de promoção das grandes editoras. Os Without Death Penalty dissertam: "como a editora funciona a um nível mais caseiro, pelo menos nesta fase inicial como editora os contactos que a Other Newest possui (contactos a nível de sitios para actuar, a nível de meios de divulgação, etc.) são ainda limitados e certos eventos realizados por esta editora não causam impactos tão grandes como eventos realizados por uma editora 'normal' que já possui meios de divulgação maiores do que uma netlabel." O grupo admite frontalmente que ambiciona no futuro obter um contracto tradicional: "no futuro claro que gostariamos de mudar para uma editora 'tradicional', mas tal movimento só será benéfico quando editarmos um álbum. Até lá para divulgarmos a nossa música neste momento recorremos a concertos e num futuro próximo a um EP para fins promocionais."
O FUTURO DAS NETLABELS
Tiago Sousa da Merzbau tem uma visão positiva do potencial das netlabels: "acho que o futuro das netlabels é agora. Já existem muitas editoras que levam muito a sério a edição de música em mp3, seja livremente ou comercializáveis. As editoras que editam música do género da que nós editamos se encontram também em nichos de mercado. O gosto pela música em si é já um factor de nicho de mercado. A música já não desempenha o papel económico que desempenhou noutros tempos. Não vejo a questão pelo facto de se ser ou não uma netlabel, tudo depende do género de 'produto' que se apresenta e da capacidade de mover capital que tenhamos." De facto, o avanço estonteante da música digital nos últimos anos tem tido as suas consequências; Daniel Catarino, AKA Landfill, considera-se ele próprio um filho da música livre: "Cresci sem ter possibilidades para comprar discos frequentemente e a música 'livre', legal ou ilegal, ajudou-me bastante culturalmente. Se não fosse issom provavelmente nem teria começado a fazer música."
Pedro Leitão mostra-se um pouco mais céptico: "Eu acho que (as netlabels) não vão substituir nada, pelo menos para já. O formato mp3 ou mesmo o flac lossless nunca poderá substituir um objecto físico como o vinyl ou o CD." Também Filipe Cruz não vê as netlabels a destronar a indústria discográfica actual, apesar de algum interesse: "para alguma gente que eu conheço as netlabels já substituem a indústria. Preferem conhecer novos projectos legalmente a serem apelidados de piratas por gostar de ouvir antes de comprar. E nesse sentido a indústria discográfica tem nos ajudado bastante a promover novos artistas. Mas infelizmente ainda é uma minoria de pessoas que tem conhecimento e segue com atenção as novas edições de netlabels. Mesmo os que ouvem novas edições ocasionalmente, e que retornam regularmente ao local do crime, julgo que não há muito o culto de seguir uma netlabel. Quem realmente se interessa acaba por se dar ao trabalho de is descobrir os novos projectos e apoiar os artistas e editoras independentes directamente. Pena que sejam poucos."
Para Cruz, o problema principal é o copyright: "julgo que só acaba quando toda a gente deixar de se registar nessas sociedades de colecta de direitos de autor e passar a licenciar a sua obra nos seus próprios websites. Coisa que muita gente já tem vindo a fazer mas nunca se tornará algo maioritário."
Apesar das suas reservas, Pedro Leitão da Test Tube antecipa um futuro promissor para as netlabels: "O CD muito provavelmente morrerá antes do vinyl e dará lugar a formatos hardware como as drives USB, que estão já a ser comercializadas no Reino Unido como singles. É inegável que o futuro é digital e assim o mostram as recentes estatísticas de mercado, as novas gerações já não concebem comprar música e muito menos um formato chato como o CD que depois tem que ser convertido num computador para se poder enfiar as músicas num leitor mp3. não dá jeito (...) Pode-se dizer que as netlabels estavam e estão na vanguarda do que poderá ser um mercado para a música, à medida que a internet se tornará o meio de consumo de música 'legal'. O recente episódio do álbum dos Radiohead apenas veio dar mais força e credibilidade ao conceito de oferecer música, e acredito sinceramente que não daqui a muito tempo a música será quase toda ela oferecida em formato mp3 e o consumidor pagará não a música mas os acessórios, o merchandising, os bilhetes que estarão associados à música, que virá como 'bónus'. As netlabels farão cada vez mais sentido para completar o futuro mercado que se começa a desenhar."
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sexta-feira, 22 de agosto de 2008
quinta-feira, 17 de julho de 2008
[História] : Espírito "indie" renasce na Internet
Enquanto andava à procura de novas e interessantes edições para colocar no BPF fui dar ao jornal Público e a este texto escrito em 28.02.2006 por Pedro Rios sobre as editoras virtuais em com especial destaque para as netlabels nacionais.
O texto foi transcrito ispsis verbis (link) e serve como mais um documento histórico sobre netlabels nacionais.
Editoras virtuais
Espírito "indie" renasce na Internet
28.02.2006 - 13h40 :, Pedro Rios (PÚBLICO)
"Basta eu achar que a música é fantástica que não penso duas vezes e edito-a." A frase de Pedro Leitão, responsável pela test tube, uma das primeiras editoras virtuais (ou netlabels) portuguesas, sintetiza o imediatismo que a Internet veio trazer à edição e ao acesso à música. Desde a sua criação, em Julho de 2004, a test tube já lançou 36 edições de músicos nacionais e estrangeiros. Há discos que chegam aos 500 downloads ao fim de dois meses on line - números consideráveis no diminuto mercado português. A test tube é uma das netlabels portuguesas, cujo número cresceu entretanto para uma dezena, quase todas surgidas no último ano.
As netlabels distribuem música em formatos digitais. As edições são semelhantes às de uma editora tradicional, mas estão disponíveis na Internet, regra geral, gratuitamente. Surgiram, a nível mundial, na década de 1990, mas têm raízes na chamada demoscene (equipas de artistas gráficos, programadores informáticos e músicos que competiam entre si). A maior parte destas editoras virtuais lança música electrónica ou experimental, mas há editoras dedicadas a outros géneros.
"Com o avanço tecnológico, o formato tornou-se como a música: imaterial", refere Pedro Granja Carvalho, da Plastic4Records. "A tecnologia evoluiu a tal ponto que nos permite divulgar música com escassos recursos obtendo potencialmente os mesmos fins que qualquer editora major [multinacional]", continua. Para André Neto, da Yellow Bop Records, as netlabels "espevitaram o músico que há em nós" e, por outro lado, permitem "aceder directamente ao consumidor". Por estas razões, há quem as compare às editoras independentes dos anos 1980, que também apregoavam o "faça você mesmo".
Indissociáveis do movimento de mudança na indústria musical imposto pela Internet, estas plataformas vêm colocar questões de direitos de autor, já que, ao contrário de outras formas de obter música na rede, pautam-se pela legalidade, através de licenças como as Creative Commons. Para Fernando Ferreira, da MiMi, existe nas editoras virtuais uma "atitude subversiva", mais do que "política". "As netlabels existem para provar que o universo da música digital não é uma afronta às companhias discográficas e aos seus artistas, mas sim uma forma de expressão por direito próprio, e de liberdade artística", argumenta.
Paisagem nacional diversificada
João Mascarenhas, da You Are Not Stealing Records, sustenta que a gratuitidade e a redução dos custos de produção associadas a este fenómeno "possibilitam mais espaço para coisas experimentais", mas alerta: "a democratização pode criar a ilusão de que qualquer coisa serve". Filipe Cruz, da Enough Records, a primeira netlabel criada em Portugal (em 2002), está satisfeito com o aumento do número de projectos congéneres, visto que, defende, este tipo de editoras "demonstra muito mais a cultura das cidades de todo o Mundo do que as editoras [tradicionais]". "É por isso que tenho uma netlabel", remata.
Ainda ligadas maioritariamente à música electrónica mais experimental, a tendência é que surjam editoras de todos os géneros. A Merzbau, por exemplo, é uma iniciativa de Tiago Sousa, um "outsider da cena netlabel", mas que, através dela, conseguiu "mover algumas iniciativas como o Out.Fest [festival no Barreiro] ou algumas noites de concertos com artistas" da editora, cujo foco de atenção é o rock.
A Merzbau, dedicada totalmente à música nacional, fez este mês um ano de existência, assinalado com o lançamento de um EP dos Lemur. Tiago Sousa considera que a dimensão da comunidade destas novas editoras portuguesas "continua a ser diminuta" e "cingida às pessoas que seguem o underground". Contudo, não acredita num "conceito fechado de netlabel", que pode vir a ser mais comercial do que actualmente. De igual forma, Carlos Monteiro, da Necrosymphonic Entertainment, uma editora orientada para o rock mais pesado e com raízes no metal, diz que o conceito é "bastante maleável". Fernando Ferreira, da MiMi, conclui: "As netlabels vão ser as editoras indie [independentes] do futuro e tendem a crescer cada vez mais. Existirão de todos os tipos de música, mais experimentais ou mainstream. Este facto não desvaloriza nada a filosofia das netlabels, pelo contrário - a música é [feita] por toda a gente e para toda a gente. É esta a ideologia das netlabels".
As netlabels portuguesas
Enough Records
http://enoughrecords.scene.org/
Primeira netlabel nacional. Tem já mais de 60 lançamentos, privilegiando formas de electrónica mais cerebrais, como a IDM e o dark ambient.
Merzbau
http://merzindie.no.sapo.pt/
A netlabel portuguesa mais voltada para o rock (de apelo indie) e exclusivamente dedicada à música portuguesa.
MiMi
http://www.clubotaku.org/mimi/
Novas tendências da música electrónica portuguesa e japonesa. Um dos projectos do ClubOtaku, organização divulgadora da cultura nipónica.
Necrosymphonic Entertainment
http://www.necrosymphonic.com/
Conta apenas com duas edições, que revelam a orientação da editora para o rock gótico e metal (com electrónica pelo meio).
Plastic4Records
http://plastic4records.com/
Música electrónica para pistas de dança convive com propostas mais abstractas.
test tube
http://www.monocromatica.com/netlabel/
Em pouco tempo, construiu um extenso catálogo com preponderância da música electrónica, mas também de rock menos ortodoxo.
Yellow Bop Records
http://essaycollective.org/yellowboprecords/
Projecto associado ao Essay Collective, reúne "dois produtores, dois músicos e um escritor de canções". Electrónica de vários feitios.
You Are Not Stealing Records
http://www.stealingorchestra.com/infolabel.htm
Netlabel de João Mascarenhas, dos Stealing Orchestra. Foi criada com a ideia de lançar discos da banda e projectos paralelos, mas alargou o raio de acção a outros artistas.
O texto foi transcrito ispsis verbis (link) e serve como mais um documento histórico sobre netlabels nacionais.
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segunda-feira, 21 de abril de 2008
Recortes de Imprensa: Netlabels no JN (2005)
Andava eu nas minhas pesquisas pela net quando tropecei num artigo do Jornal de Notícias, datada de Dezembro de 2005 onde era abordado o tema netlabels e da qual fazem parte testemunhos de dois dos membros do BPF: O Pedro Leitão (The Caped Crusader) e o Tiago Sousa. Sendo assim decidi transcreve-la até porque continua pertinente e actual:
"Circuito alternativo merece atenção de editoras multinacionais
Distribuidoras gratuitas de música 'on-line' apostam em projectos ousados
Cláudia Luís

Para já, o universo 'netlabel' "continua a ser familiar entre as pessoas ligadas ao meio musical, sendo ainda desconhecido do grande público", acrescenta Tiago Sousa, da Merzbau.
Esclareça-se 'netlabels', 'on-line labels' ou 'web labels' são distribuidoras de música em formato digital, maioritariamente em mp3, na Internet. A maioria disponibiliza os conteúdos gratuitamente - não há objectos físicos - e aposta em criações alternativas ao circuito discográfico tradicional voltado para o 'mainstream'.
Pode dizer-se que os serviços 'on-line' dedicados à música existem praticamente desde o aparecimento dos computadores pessoais. Contudo, o fenómeno das 'web labels' instalou-se a partir do momento em que o consumo de música em formato mp3 se popularizou, no final da década de 90. Entre os pioneiros, a nível mundial, constam a Kosmic Free Music Foundation, cuja actividade se prolongou entre 1991 e 1999, a Five Musicians, entre 1995 e 2000, e, a funcionar desde 1997, a Tokyo Dawn Records. Em Portugal, coube à Enough Records desbravar caminho.
Multinacionais aderem
"As 'netlabels' são fruto da revolução informática e apresentam-se como mercado alternativo ao da comercialização de mp3, uma vez que fazemos uma distribuição gratuita", afirma Tiago Sousa. "As próprias editoras multinacionais quiseram apostar neste mercado e algumas delas pretendem criar 'sublabels' para o lançamento de EPs e singles promocionais", acrescenta Pedro Leitão.
Recorde-se que o fenómeno advém da alteração da forma de consumo de música "O mercado de 'downloads' legais disparou no primeiro semestre de 2005, sobretudo na Europa", assegurou a International Federation of Phonographic Industry.
No caso da Test Tube, Pedro Leitão traça um balanço muito positivo "Uma média de 3 mil visitantes por dia, sendo a sua maioria estrangeiros".
Os leitores áudio digital vieram para ficar e o próprio director-geral da Associação Fonográfica Portuguesa, Eduardo Simões, declarou recente- mente ao JN que se assiste ao "maior desafio e à maior oportunidade de sempre para a indústria fonográfica, no sentido da transformação de uma indústria de suportes numa indústria de direitos".
Direitos protegidos. As 'netlabels' salvaguardam a propriedade intelectual dos artistas através do serviço 'creativecommons license', fundado em 2001na Internet.
Fenómeno 'underground'
O mercado aponta no sentido do crescimento das 'netlabels', assim como a experiência e as melhores expectativas de alguns dos seus responsáveis, nomeadamente, devido ao facto de serem lojas virtuais gratuitas. Mas Pedro Leitão sublinha que a verdadeira natureza deste projecto não é o da "grande exposição mediática isso seria estranho. Tem tudo para crescer, mas os próprios músicos e intervenientes envolvidos gostariam que se mantivesse enquanto fenómeno 'underground'".
O responsável lembra que "as 'netlabels' nasceram como contracultura, como forma forma de disponibilizar cultura gratuitamente e para todos, contra o mercado 'mainstream'".
Entretanto, vão sucedendo casos de músicos que começam por divulgar o seu trabalho em 'weblabels' e acabam por ser convidados por editoras independentes para editar em suporte físico. Pedro Leitão não tem dúvida quanto ao potencial "efeito trampolim" destas editoras.
Desobrigação financeira
Mercado cresce em Portugal
A maioria destas montras identifica os princípios subjacentes à sua actividade nos 'sites' (ver caixa). No caso da Test Tube, privilegiam-se "novas linguagens, projectos não convencionais e originais com qualidade estilísca e empenho na sua realização", diz Pedro Leitão.
O 'site' da Merbau vai mais longe e apresenta o seu manifesto "Num país como Portugal, em que é muito difícil obter lucro através da venda de discos, a desobrigação financeira que uma 'netlabel' oferece pode ser um bom meio". Este "desprendimento financeiro permite assim fazer apostas mais ousadas", realça Tiago Sousa, consciente, no entanto, da principal desvantagens do serviço. "Além de dependermos da boa vontade das pessoas, o mp3 é um formato mais prático, mas comprime demasiado as músicas, negligenciando a sua qualidade original. Nunca pagaria por um!"
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