sexta-feira, 22 de agosto de 2008

JUP - Fevereiro/Março 2008

Transcrevo um artigo saido no Jornal da Academia do Porto (JUP), edição Fevereiro/Março 2008, página 24, escrito por Daniel Reifferscheid:

Músicos aderem cada vez mais a editoras digitais
NETLABELS PROCURAM NOVOS SONS


Com o surgir da muito badalada revolução digital, era omnipresente a conversa sobre como o futuro da música passaria por uma relação directa artista/público, deixando de lado as edioras que, como todos sabemos, metem-se sempre no processo criativo do artisto e "só querem é dinheiro". Surpreendente, então, constatar que cada vez mais, os artistas com "know-how" do online (isto é, aqueles cuja fama reside tanto em blogs, podcasts e no myspace como nos meios tradicionais) se estão a juntar a um novo tipo de editoras - as netlabels.
É claro que o estereótipo da editora monolítica, anónima e sedenta de lucros é apenas uma parte da história. Aplica-se principalmente aos grandes conglomerados que, devido à cada vez maior monopolização do mercado, estão sempre a fundir-se em entidades menos e menos interessadas no aspecto estético do seu trabalho. Mas na história da música, não faltam exemplos de editoras que, seja por amor à música ou ao dinheiro, criaram estéticas próprias e levaram os seus artistas a lugares aonde, sozinhos, provavelmente nunca teriam chegado. Editoras como a Okeh, a Atlantic ou a Chess deixaram-nos um legado de música "roots" americana que muito facilmente poder-se-ia ter perdido. Para um bom "music geek", notar que um determinado disco saiu na Stax, na Fania, na Motown ou na Studio One já diz muito sobre o seu conteúdo. Impossivel imaginar o movimento Pós-Punk sem a Rough Trade, a Postcard ou a Virgin; o Hip-Hop sem a Tommy Boy ou a Def Jam; a música electrónica sem a Warp ou a strictly Rhythm. Mesmo hoje, ainda associamos certas sonoridades específicas a selos tão dispares como a Kompakt ou o Secretly Canadian, já para não falar das editoras de relançamentos, um campo aberto pela Rhino Records que hoje conta com iniciativas tão interessantes como a Soul Jazz, a Light In The Attic ou a Numero.
Mas como funciona isto das netlabels? Numa era em que a música quer-se livre e sem manifestação material, qual é a função das editoras? O JUP entrou em contacto com quatro netlabels de destaque no panorama português: a Merzbau, a Enough Records, a Test Tube e a estreante Other Newest Records.

O QUE É UMA NETLABEL?

Como o próprio nome indica, uma netlabel é uma editora que disponibiliza as obras dos seus artistas online. Apesar de não ser completamente inédito existirem netlabels que colocam preços nas obras dos seus artistas, o mais normal é estas encontrarem-se disponíveis para um descarregamento gratuito. Para Pedro Leitão , da Test Tube, a própria razão da criação da sua editora passou pela existência de muitos projectos musicais que não podiam ser promovidos de forma tradicional: "recebemos cada vez mais demos de artistas e bandas de estéticas experimentais e que dificilmente teriam lugar e oportunidade em edições físicas, que exigem um esforço financeiro muito grande e com muito reduzidas prespectivas de o recuperar a curto ou médio prazo."
A internet é um meio com vantagens enormes para os músicos, mas nem toda a gente tem vontade de se lançar nas trabalheiras promocionais exigidas numa edição de autor. Daniel Catarino, que cria ambientes electrónicos soturnos e esparsos para a Test Tube sob o pseudónimo Landfill, considera que as vantagens "passam, sobretudo, por teres ajuda a tratar de algumas coisas que fazem parte de qualquer lançamento: as capas, a protecção dos direitos de autor, a divulgação e a exposição em alguns meios onde, de outra forma, provavelmente não chegaria o trabalho se fosse tudo feito por mim."
As netlabels são organizações bastante distintas das editoras tradicionais. Pedro Leitão estabelece a comparação com as galerias de arte: "gostamos de pensar nos trabalhos que oferecemos não como um produto - que foi naquilo em que a indústria transformou o disco - mas sim numa peça de arte como um quadro ou uma instalação. No fundo a Test tube é uma galeria de obras de arte e é assim que encaixa no nosso conceito de netlabel. Nós meramente fazemos o trabalho de selecção de apresentação - de curadoria." Também Tiago Sousa, da Merzbau, rejeita os moldes de editora tradicional: "nós não prestamos serviços. A Merzbau é uma comunidade de artistas e pessoas interessadas em criar e promover actividades. O espírito da Merzbau é de lançar mãos ao trabalho e descobrir formas diferentes de agir." De facto, "comunidade" parece ser uma palavra-chave quando analisamos o fenómeno das netlabels, e os próprios artistas admitem que poder fazer parte duma "família" discográfica incentiva à colaboração artistica. "Ajuda no contacto com outros músicos para criar projectos possivelmente interessantes", afirma Landfill; os Without Death Penalty, uma das primeiras bandas assinadas pela Other Newest, concordam: "o contacto pessoal entre bandas (...) é maior, o que nos abre um leque novo de possibilidades quanto a concertos que se poderão vir a realizar, coisa que até ai era complicado pois não tinhamos conhecimento de outras bandas dentro do nosso género e que estivessem mais ou menos no mesmo nível que nós."
Tal como já acontecia nas editoras físicas de menor porte, surge uma certa camaradagem entre artistas e editor: "tentamos comunicar sempre de forma vertical, de forma directa - não há nenhuma hierarquia", explica Nuno Martins da Other Newest Records. "Como este tipo de editoras funcionam de um modo mais caseiro, o contacto entre a entidade directora (...) e as bandas é muito mais directo", adicionam os Without Death Penalty.

PROMOÇÃO E DISCOS

Mas saindo do conceptual e passando para a realidade concreta, será que os apoios que um artista recebe duma netlabel se comparam aos duma editora tradicional? "Primordialmente, disponibilizamos as releases online para download gratuito. Temos vários servidores e serviços p2p onde as nossas edições estão alojadas (archive.org, scene.org, last.fm, vuze, soulseek)2, diz Filipe Cruz da Enough Records. Mas a actividade da sua editora não se fica por aí: "desde a um ano para cá ocasionalmente organizamos concertos para dar a conhecer projectos que editam na Enough, organizamos por exemplo um festival de musica electrónica experimental independente chamado STFU Porto, 3 dias, 9 projectos (2 deles estrangeiros) e várias noites dedicadas a música alternativa (Electro-Industrial, Noise, Dark Ambient), não porque desgostamos dos géneros tradicionais, simplesmente porque não acontecem muitos eventos destes nas cidades portuguesas e é uma pena porque há ai muito talento escondido debaixo das rochas pronto a ser descoberto, mas sem público interessado..."
Ao contrário do que se poderia pensar, as netlabels não excluem também os lançamentos de CDs em formato "físico": "o importante é promover, seja através de lançamentos online ou mesmo em CDRs", remata Nuno Martins. CDRs e DVDs são os formatos predilectos: a Test Tube tem apostado com bastante sucesso nesse campo: "sazonalmente iremos imprimir um catálogo em formato DVD media com uma compilação doq ue já se fez. Neste momento já temos a primeira edição desse catálogo concluída, que começamos a vender em Abril de 2007. Contém as primeiras 75 edições num único DVD com uma apresentação gráfica digna dos trabalhos que lá estão. Correu muito bem e esgotámos as 100 cópias que imprimimos em apenas 3 semanas." Também a Enough utiliza estes meios: "ocasionalmente organizamos compilações e imprimimos CDRs, mais para oferecer promocionalmente em concertos ou encontros. Anualmente imprimimos uma catrapada de dvdroms com o catálogo mais recente da editora e oferecemos ao desbarato."

OS CONTRATOS

Como seria de esperar com operações tão pequenas e familiares como as netlabels aparentam ser (pelo menos por agora), a burocracia é minima e a liberdade considerável. Diz Pedro Leitão da Test Tube: "Qualquer artista que nos aborde e que colabore com os seus trabalhos na Test Tube é livre de os apresentar noutras editoras, sejam elas igualmente livres ou comerciais. Não há restrições nesse sentido nem nunca haverá. Não faz parte do espírito e da postura do conceito de 'música livre' existirem correntes e espartilhos empresariais." Filipe Cruz da Enough concorda: "acontece muito um artista editar em diferentes netlabels, não só para tentar dar apoio a quem está à frente da editora como também para tentar atingir maior público possível, é prática comum." a situação lembra uma versão ainda mais radical da atitude dum Tony Wilson da Factory Records, tornada mito no "Twenty Four Hour Party People". Tiago Sousa concorda com a comparação: "Exacto, é completamente Factory, só que eu não assino contractos com sangue. Tenho fobia a sangue."
Mas mesmo dentro destes parâmetros, surgem conflitos: "Só detesto é quando passo meses a dar feedback a alguém e a incentivar para acabar o seu novo trabalho e depois decidem enviar a outra netlabel porque tem mais nome, nesse aspecto corto logo o nome do artista da lista de projectos interessantes que quero ver editar na Enough.", lembra Filipe Cruz. Desde a sua criação, a Enough tem tido algumas dificuldades com este tipo de situações: "houve alguns problemas com algumas editoras e a indústria musical neste aspecto, onde artistas mal informados tratavam as netlabels como veiculo promocional temporário, depois assinavam os temas e pediam para os removerem, isso para mim é uma palhaçada. Ainda pior é quando assinam um nome numa sociedade colectora de direitos de autor que envia emails à netlabel a pedir dinheiro por disponibilizar a música do artista, o artista nem tem voto na matéria. São modelos completamente arcaicos que só fazem sentido no capitalismo cego da indústia, gente que anda atrás da mama do artista e artistas que consentem ser completamente explorados porque recebem uns trocos cada dois anos. Uma completa palhaçada que infelizmente ainda vai tem muito pano para mangas." Talvez por causa disso, a Enough possui um certo sistema de segurança: "quanto aos formalismos contratuais exijo sempre uma resposta de confirmação por email a dizer que compreendem que ao editarem na Enough nos estão a ceder os direitos não exclusivos de vitaliciamente distribuir estes temas em regime não comercial e que uma vez editados não os removemos do nosso catálogo."
A Test Tube, por sua vez, recorre às licenças de "Creative Commons", uma organização cujo objectivo é possibilitar ao artista ficar com alguns direitos de autor ao mesmo tempo que prescinde dos restantes - uma tentativa de adaptar o "copyright" à era de informação, no fim de contas. "Apoiamo-nos tamb+em nas licenças Creative Commons que conferem uma base legal aos trabalhos oferecidos, e os enquadram em termos de copyright (ou copyleft, como é mais conhecido) para que os artistas sintam que estão de alguma forma protegidos contra a utilização abusiva dos seus trabalhos", explica Pedro Leitão.

THE SOUND OF YOUNG PORTUGAL

Mas para o consumidor, tudo isto importa muito menos do que o factor principal: a música. Lentamente, nomes como Merzbau ou Borland começam a associar-se no panorama musical português a certas sonoridades. Também a Test Tube tenta marcar pela diferença: "Tal como uma galeria de arte cuida a sua imagem e apresentação dos seus catálogos, também a Test Tube procurou desde o início posicionar-se no 'mercado' das netlabels, oferecendo a quem queira colaborar com ela uma imagem cuidada e facilmente identificável. Não sei se podemos apontar algum estilo à Test Tube... mas a poder, julgo se seria um estilo funcionalista. Interessanos sobretudo que a imagem seja clara e identificável e apenas depois seja agradável. O que há de positivo nesta estética é que normalmente o que é simples e funcional é bonito e agradável."
Para Landfill, pertencer a uma netlabel não deixa de ser um certo rótulo: "...há ainda muita gente que não coloca os lançamentos por netlabels ao mesmo nível dos editados em formato físico por uma outra editora. Quando a esmola é muita, o pobre desconfia. E também porque o fenómeno surgiu por necessidade de editar certos estilos demasiado 'estranhos' para as editoras normaism talvez stenha ficado o estigma de netlabel = música 'estranha'." Filipe Cruz, cuja Enough é vista principalmente como uma editora electrónica, queixa-se da falta de interesse por falta de artistas Rock: "projectos de 'banda' tendem a não estar muito interessados nas netlabels, ainda têm sonhos de ser explorados pela indústria, parece que preferem fazer edições de autor e depois cair no esquecimento."
Apesar de todo o optimismo, não é possível negar que as netlabels não possuem o mesmo poderio de promoção das grandes editoras. Os Without Death Penalty dissertam: "como a editora funciona a um nível mais caseiro, pelo menos nesta fase inicial como editora os contactos que a Other Newest possui (contactos a nível de sitios para actuar, a nível de meios de divulgação, etc.) são ainda limitados e certos eventos realizados por esta editora não causam impactos tão grandes como eventos realizados por uma editora 'normal' que já possui meios de divulgação maiores do que uma netlabel." O grupo admite frontalmente que ambiciona no futuro obter um contracto tradicional: "no futuro claro que gostariamos de mudar para uma editora 'tradicional', mas tal movimento só será benéfico quando editarmos um álbum. Até lá para divulgarmos a nossa música neste momento recorremos a concertos e num futuro próximo a um EP para fins promocionais."

O FUTURO DAS NETLABELS

Tiago Sousa da Merzbau tem uma visão positiva do potencial das netlabels: "acho que o futuro das netlabels é agora. Já existem muitas editoras que levam muito a sério a edição de música em mp3, seja livremente ou comercializáveis. As editoras que editam música do género da que nós editamos se encontram também em nichos de mercado. O gosto pela música em si é já um factor de nicho de mercado. A música já não desempenha o papel económico que desempenhou noutros tempos. Não vejo a questão pelo facto de se ser ou não uma netlabel, tudo depende do género de 'produto' que se apresenta e da capacidade de mover capital que tenhamos." De facto, o avanço estonteante da música digital nos últimos anos tem tido as suas consequências; Daniel Catarino, AKA Landfill, considera-se ele próprio um filho da música livre: "Cresci sem ter possibilidades para comprar discos frequentemente e a música 'livre', legal ou ilegal, ajudou-me bastante culturalmente. Se não fosse issom provavelmente nem teria começado a fazer música."
Pedro Leitão mostra-se um pouco mais céptico: "Eu acho que (as netlabels) não vão substituir nada, pelo menos para já. O formato mp3 ou mesmo o flac lossless nunca poderá substituir um objecto físico como o vinyl ou o CD." Também Filipe Cruz não vê as netlabels a destronar a indústria discográfica actual, apesar de algum interesse: "para alguma gente que eu conheço as netlabels já substituem a indústria. Preferem conhecer novos projectos legalmente a serem apelidados de piratas por gostar de ouvir antes de comprar. E nesse sentido a indústria discográfica tem nos ajudado bastante a promover novos artistas. Mas infelizmente ainda é uma minoria de pessoas que tem conhecimento e segue com atenção as novas edições de netlabels. Mesmo os que ouvem novas edições ocasionalmente, e que retornam regularmente ao local do crime, julgo que não há muito o culto de seguir uma netlabel. Quem realmente se interessa acaba por se dar ao trabalho de is descobrir os novos projectos e apoiar os artistas e editoras independentes directamente. Pena que sejam poucos."
Para Cruz, o problema principal é o copyright: "julgo que só acaba quando toda a gente deixar de se registar nessas sociedades de colecta de direitos de autor e passar a licenciar a sua obra nos seus próprios websites. Coisa que muita gente já tem vindo a fazer mas nunca se tornará algo maioritário."
Apesar das suas reservas, Pedro Leitão da Test Tube antecipa um futuro promissor para as netlabels: "O CD muito provavelmente morrerá antes do vinyl e dará lugar a formatos hardware como as drives USB, que estão já a ser comercializadas no Reino Unido como singles. É inegável que o futuro é digital e assim o mostram as recentes estatísticas de mercado, as novas gerações já não concebem comprar música e muito menos um formato chato como o CD que depois tem que ser convertido num computador para se poder enfiar as músicas num leitor mp3. não dá jeito (...) Pode-se dizer que as netlabels estavam e estão na vanguarda do que poderá ser um mercado para a música, à medida que a internet se tornará o meio de consumo de música 'legal'. O recente episódio do álbum dos Radiohead apenas veio dar mais força e credibilidade ao conceito de oferecer música, e acredito sinceramente que não daqui a muito tempo a música será quase toda ela oferecida em formato mp3 e o consumidor pagará não a música mas os acessórios, o merchandising, os bilhetes que estarão associados à música, que virá como 'bónus'. As netlabels farão cada vez mais sentido para completar o futuro mercado que se começa a desenhar."

3 comentários:

ps disse...

decididamente tenho um dom sobre-humano de oferecer em entrevistas citações facilmente reinterpretáveis como posições extremistas que acabam por não ser muito representativas do que na realidade penso sobre os assuntos descritos.

Ogata T3tsuo disse...

E mais uma vez a MiMi foi esquecida :P

Já estou como o outro falem bem ou mal o que interessa é que falem de nós... ou talvez não ;)

BrainDance disse...

ps, independentemente de ser ou não extremista, concordo com o teu ponto de vista. Compreendo que para muitos músicos/produtores vejam no netaudio uma montra que permita outras perspectivas, mas também eles devem compreender que é feio "cuspir no prato".