quinta-feira, 8 de outubro de 2026

[mi371] : Vitor Rua & Manuel Teles - The rain lingers until it learns the name of thunder

[UK]
For almost an hour, Vítor Rua’s granular Steinberger guitar and Manuel Teles’s saxophones and voice create a soundscape that seems neither to begin nor to end, but simply to become audible — like rain that was already falling before we arrived and will continue after we have gone.

The music unfolds through accumulation, suspension and transformation. Particles of guitar move through space like water dispersed in the air; the alto saxophone emerges at times as a distant line, at others as rough matter, breath, friction or an almost animal presence. The voice neither narrates nor explains: it appears as another body within the landscape, a form of breathing matter that approaches and dissolves.

Here, ambience is not a motionless background. It is alive, slowly changing, and inhabited by forces that cannot always be anticipated. Beneath its apparent stillness, tensions gather, densities shift and subterranean movements take shape. From time to time, the surface breaks open: the sound expands, layers collide and the music erupts into moments of exaltation, like thunder that does not interrupt the rain but reveals the energy concealed within it from the beginning.

Between the granular guitar, prepared saxophone and voice, an environment emerges that is both electronic and organic, in which each sound seems to alter the air around it. Rather than leading towards a destination, the piece invites the listener to remain: to follow the subtle mutations of an extended duration and to recognise that even stillness contains storms.

Vítor Rua’s musical path unfolds like a long arc through experimental territories, where curiosity consistently outweighs style and sound is treated as a living material rather than a fixed language. Over decades, his work has moved fluidly between rock deconstruction, electroacoustic composition, free improvisation, noise, ambient, and granular abstraction. What unifies this trajectory is a persistent interest in process, texture, and the physicality of sound — how it occupies space, how it erodes over time, and how technology can be used not to polish, but to expose fragility. Rua’s guitar playing resists idiom; it listens more than it asserts, allowing feedback, resonance, and error to become compositional forces. His work often inhabits the space between control and surrender, where sound is guided but never fully domesticated.

Manuel Teles is a multi-awarded portuguese saxophonist dedicated to the creation, promotion, and circulation of the new music. Graduated summa cum laude from Milan’s Giuseppe Verdi Conservatory, his work spans modern, experimental, classical, orchestral, and improvised music.

He has performed in venues such as Teatro alla Scala, Centro Cultural de Belém, Teatro San Carlo, Casa da Música, Teatro Filarmonico di Verona, Auditorium Parco della Musica, Lisbon and Porto Coliseums, and the Calouste Gulbenkian Foundation.

Teles regularly collaborates with ensembles and orchestras including Divertimento Ensemble, Filarmonica della Scala, mdi ensemble, Orchestra dell’Accademia Nazionale di Santa Cecilia, and Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Throughout his career, he has worked with composers, conductors, and performers such as Riccardo Chailly, Myung-Whun Chung, Gavin Bryars, Salvatore Sciarrino, Mikel Urquiza, Luís Tinoco, Maxime Pascal, Markus Stenz, and António Victorino D’Almeida.

His interest in non-western musical traditions, particularly those of southeastern Europe and India - has deeply shaped his artistic vision, leading to collaborations with figures like Hariprasad Chaurasia and fueling continuous research into diverse concepts of sound and performance.

Credits Composition: Vítor Rua and Manuel Teles Vítor Rua: granular Steinberger guitar Manuel Teles: alto saxophone, prepared alto saxophone and voice Duration: approximately 60 minutes

[PT]
Durante quase uma hora, a guitarra Steinberger granular de Vítor Rua e os saxofones e a voz de Manuel Teles constroem uma paisagem sonora que parece não começar nem terminar, mas simplesmente tornar-se audível — como uma chuva que já caía antes de chegarmos e continuará depois de partirmos.

A música desenvolve-se por acumulação, suspensão e transformação. Partículas de guitarra atravessam o espaço como água dispersa no ar; o saxofone alto surge por vezes como uma linha distante, por vezes como matéria rugosa, sopro, fricção ou presença quase animal. A voz não narra nem explica: aparece como mais um corpo dentro da paisagem, uma matéria respirada que se aproxima e se dissolve.

O ambiente não é aqui um fundo imóvel. Está vivo, altera-se lentamente e contém forças que nem sempre se deixam prever. Sob a aparente serenidade acumulam-se tensões, mudanças de densidade e movimentos subterrâneos. De tempos a tempos, a superfície abre-se: o som cresce, as camadas chocam entre si e a música irrompe em momentos de exaltação, como trovões que não interrompem a chuva, mas revelam a energia que desde o início se escondia dentro dela.

Entre a guitarra granular, o saxofone preparado e a voz, forma-se um território simultaneamente electrónico e orgânico, onde cada som parece modificar o ar que o rodeia. Mais do que conduzir a um destino, a peça convida a permanecer: a escutar as pequenas mutações de uma duração extensa e a reconhecer que mesmo a quietude contém tempestades.

O percurso musical de Vítor Rua desenrola-se como um longo arco através de territórios experimentais, onde a curiosidade se sobrepõe constantemente ao estilo e o som é tratado como matéria viva, mais do que como uma linguagem fixa. Ao longo de décadas, o seu trabalho tem-se movido com fluidez entre a desconstrução do rock, a composição electroacústica, a improvisação livre, o noise, o ambient e a abstracção granular.

O que unifica este percurso é um interesse persistente pelo processo, pela textura e pela fisicalidade do som — pela forma como ocupa o espaço, como se desgasta ao longo do tempo e como a tecnologia pode ser utilizada não para o polir, mas para expor a sua fragilidade. A guitarra de Rua resiste a qualquer idioma estabelecido; escuta mais do que se afirma, permitindo que o feedback, a ressonância e o erro se tornem forças composicionais.

O seu trabalho habita frequentemente o espaço entre o controlo e a entrega, onde o som é conduzido, mas nunca inteiramente domesticado.

Manuel Teles é um multi-premiado saxofonista português interessado na criação, promoção e difusão da nova música. Formado summa cum laude pelo Conservatório Giuseppe Verdi de Milão, move-se entre os campos da música moderna, experimental, clássica, orquestral e improvisada.

Apresentou-se em salas como o Teatro alla Scala, Centro Cultural de Belém, Teatro San Carlo, Casa da Música, Teatro Filarmonico di Verona, Auditorium Parco della Musica, Coliseus do Porto e Lisboa, e Fundação Calouste Gulbenkian.

Tem vindo a colaborar com o Divertimento Ensemble, Filarmonica della Scala, Orchestra dell’Accademia Nazionale di Santa Cecilia, mdi ensemble, e com a Orquestra Metropolitana de Lisboa.

Trabalhou com compositores, maestros e intérpretes como Riccardo Chailly, Myung-Whun Chung, Gavin Bryars, Salvatore Sciarrino, Mikel Urquiza, Luís Tinoco, Maxime Pascal, Markus Stenz e António Victorino D’Almeida.

O seu interesse por outras tradições musicais, em particular as do Sudeste Europeu e da Índia, tem influenciado profundamente a sua visão artística, motivando colaborações com figuras como Hariprasad Chaurasia, e alimentando uma pesquisa constante sobre diversas conceções sonoras e performativas.

Ficha técnica Composição: Vítor Rua e Manuel Teles Vítor Rua: guitarra Steinberger granular Manuel Teles: saxofone alto, saxofone alto preparado e voz

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